sábado, 12 de março de 2011

Meu mundo caiu

Na 23a semana estávamos preparados para mais um novo us e bola pra frente. Durante o exame notei algo errado. A onda do doppler estava estranha. A Lu, ultrassonografista, ponderou, "quem sabe um momento ruim, o doppler é um exame diâmico". Deveríamos repetir em uma semana.
Como qualquer casal "normal" ficamos em alerta. O Eduardo falou que isso tinha acontecido com sua filha e depois normalizara. Tudo bem.
24a semana, la estávamos nós, mais US. Doppler alterado, e muito. O Eduardo, estava viajando e a orientação foi repetir novamente em uma semana. Saí de lá não com uma pulga, mas uma baleia azul em minha orelha. Estava acontecendo algo. Por coincidênca, a mais feliz do ano, iria acompanhar um procedimento com um colega, Fábio Peralta, especialista em medicina fetal, que não conhecia, mas suas credenciais falavam por si. Seria um procedimento complexo, separar dois gêmeos que se alimentavam da mesma placenta e um crescia mais que o outro. Grande risco de perder de tudo. Era uma paciente muito querida e iria dar apoio.
O procedimento foi um sucesso e ele uma simpatia. Falei do meu caso e ele se prontificou a nos ver. Com 24 semanas e 3 dias entramos em seu consultório. Um exame minucioso e o veredito, nossa filha, Alice estava mal. Suas chances eram pequenas de sobreviver, pois o caso era muito serio e sem nada a fazer. Se fizessemos o parto naquele momento - todas morreriam; se continuássemos estávamos, provavelmente, condenando uma filha a uma vida de superação ou a sua ausência.
Posso garantir que não sabia o que fazer ao sair do consultório.
Fomos para casa em silêncio. Ao entrar em casa, minha esposa desabou: "não quero ver este berço vazio!" Chorar não sintetiza aquele momento. Urrar de dor sim.
Ligamos para pais e irmãos e contamos tudo. Acho que nunca senti tanta dor na minha vida, e olha que já sofri 14 cirurgias.
Minha sogra veio nos confortar na outra manhã, mas nada fazia sentido.
A programação seria: US em uma semana, já que não adiantava fazer nada, e assim foi feito.
25 semanas e 3 dias - Novo US, coração há mil e lá fomos nós. Para nossa surpresa, e do Fábio, o caso não havia piorado, Alice crescera um pouquinho e se segurava por um fio a vida. E nós a este fio. Novo acordo, como isto não era o esperado repetir com outra semana. Parecia que uma luz se acendia, mas não queríamos ficar muito alegres, afinal o tombo é sempre maior quanto mais alto estamos.
26 semanas e 3 dias - US e o mesmo calafrio. O doppler não piorará e ela crescera mais um pouco. Ela tinha pouco mais de 600 gramas. Fábio cresceu em expectativa. Poderia dar certo, mas deveríamos aguardar outra semana.
27 semanas e 3 dias - US e um nó na garganta. O doppler mantido, peso em 700 gramas e um monte de sonhos. O cordão umbilical estava muito lateral e quase solto da placenta. Este era o problema. Agora tudo era diferente: havia chance de tudo acabar bem, ora estavamos perto do nosso novo Changrilah - 28 semanas. É nesta fase que o pulmão do bebê começa a funcionar. Novo acordo: US todo dia para fazer o doppler. Caso piorasse interrupção imediata da gestação. Agora já sonhávamos com as três em casa. Realmente um sonho.
Não perdi tempo - corri a UTI do Santa Joana, onde trabalho, e fui falar com as neonatologistas. Em uma conversa franca nos enchemos de esperança. Naquela altura as chances de sobrevida eram grandes e de sequelas em 20%. Mas acho que nunca vou esquecer daquele dia e daquela conversa. Filó seria a segunda mãe das pequenas.
Ninguém pode imaginar, a não ser quem passou, o que é fazer um US diário. Acho que se não tive um troço naquela época é por que meu coração é bom mesmo.
E assim começamos: dia após dia fazendo US e tudo mantendo o padrão. Todo dia íamos ao céu a cada noticia boa. Fábio, que foi impagável, abriu seu consultório no feriado (feriadão) de 2 novembro para nos atender, apenas, nos atender. Sempre me achei um bom médico, estava errado, ele sim era.
Fábio, foi um anjo. Obrigado.
A 28a semana foi comemorado como um golaço. Agora tudo parecia mais azul.
Como tudo transcorria bem, voltamos a sonhar alto, lembrado: isto nunca é bom, tudo mantido por que não chegar a 30a semana?
28 semanas e 2 dias - Era um dia ordinário. Nossas coronárias já estavam serenas e se chegamos até ali ir adiante era fichinha. Esquecemos que as coisas não são simples assim. O Fábio ficou 2 horas fazendo e refazendo o exame. Refez, a pedido da Maíra, todo o exame. Alice não cresceu e o peso estava em 780 gramas. Para piorar o doppler alterou durante o exame. Final de linha. Iríamos ter 3 filhas com pesos variando entre 780 e 1500 gramas. Adrenalina a mil. Esquecemos que este momento seria duro.

Última noite na barriga. 05_6_2010
 Agora o parto, o momento decisivo.

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