segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

TRIGÊMEOS É UM SONHO?

Quem trabalha com reprodução sabe que dados são sempre importantes. Temos que reportar tudo para centros que gerenciam e monitoram os resultados obtidos e nos colocam sempre no caminho certo (bom e velho “puxão de orelha”). Por isso mantemos o contato, mesmo após o encaminhamento para o pré-natal, para saber sobre “nossos” bebes (peso, idade gestacional, apgar...). É um momento da verdade. De saber o que fizemos e resultados.

E foi dessa forma que descobri que os trigêmeos de uma paciente de meu sócio estavam. Nasceram no interior do estado, com 32 semanas e pesos excelentes para prematuros (cerca de 1500g cada). A maternidade não era um primor e aparentemente alguns problemas ocorreram. Resultado são três crianças com paralisia cerebral entre outros problemas. Da mesma feita, na última vez que fomos ao oftalmologista (obrigatório para prematuros) encontramos outros trigêmeos e um deles com uma paralisia motora importante e um certo déficit intelectual. Nos conversamos um pouco sem que ela soubesse que era também pai de trigêmeos e o relato de luta era duro. Foi muito chocante para mim. 
Ate Sherek chiou...
Não tenho dúvida que o mundo tem uma velocidade diferente de outrora e que queremos tudo para ontem, assim ter gêmeos é uma facilidade incrível. Imagina só um parto e tudo resolvido; ou um só tratamento (e seus custos altos) e pronto uma família completa da noite para o dia. Mas o que é bonito em muitos portas retratos representa o “pesadelo” de muitas famílias (basta conversar com alguém que trabalha com crianças especiais para ver o pavor a gêmeos que têm).

Não existe dados oficiais sobre as sequelas aos múltiplos (independente do número de bebês), mas quando as minhas filhas fizerem 25 semanas (intra útero) fui conversar com a chefe da UTI neo do HMSJ e fiquei espantado. A morbidade nesta faixa de semana é de quase 90%. As minhas nasceram com 28 semanas e 3 dias. Na ocasião tinham 15% de Mortalidade e 80% de morbidade. Falávamos de um "pé torto ou uma marcha ruim" como algo certo e bobo (para eles que tem crianças com problemas muito maiores isso valia, contudo para mim era aterrorizante). São números aproximados de um centro de excelência em SP, não podemos extrapolar para os demais. Nunca é demais lembrar que minhas filhas nasceram com 780, 1000 e 1200g cada.
Quem não os conhece assista Valente....
Muitas pessoas chegam a meu consultório e veem a foto de minhas filhas, saudáveis, lindas e dizem que querem também. Respondo de forma pragmática: não desejo isso para ninguém. E suponho que muitos acham que estou brincando, mas não estou não! Quem já leu relatos anteriores sabe o que passamos e ainda esta por vir.

Nossas filhas são um ponto fora da curva e credito isso a algumas coisas: 1º Deus. Ele colocou sua mão em Maíra e nossas filhas; 2º uma medicina muito acima da media, ter bons profissionais cuidando de você foi decisivo para sabermos a hora exata que a gestação não podia progredir. Aqui incluo principalmente um bom médico fetal; 3º uma maternidade com uma UTI neonatal que te respalda, pois não adianta ser perto de casa ou ter um quarto grande, com prematuros o que manda é a UTI e ponto final. Nunca deixe de priorizar a excelência na medicina, pois no final das contas é dela que precisamos para valer.
+Vamberto Maia Filho 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

2012 UM ANO DIFÍCIL DE ENGOLIR....

O primeiro dia de 2012 foi um prenuncio do que viria. Dormimos as 02:40 e acordamos as 05:30 (as meninas nunca dormiram ate tarde como de alguns amigos e não o fazem até hoje...). Fomos para a varanda assistir o sol nascer. Entre muito choro contemplamos o futuro. Não amigos, não quero dizer que esse momento poético (que não esquecerei) era um prenuncio de um ano tranquilo, o que na verdade significava era: Vocês vão dormir menos ainda, acordar mais cedo e ter mais trabalho!!!!E assim começou nosso ano de 2012: cansado, com sono e particularmente com dor de cabeça (crianças pequenas e comemoração de Réveillon não combinam). Acho que foram quase 356 dias deste mesmo tom.
As meninas começaram a andar nesta fase e era difícil evitar trombadas e mãozinhas bobas destruindo tudo. Mas esta fase foi até engraçada, pena que coincidiu com uma fase terrível de dificuldade em comer. Juro que foram meses de muita luta. As minhas filhas simplesmente não gostavam e não gostam de comer. Cada refeição era encarada como um desafio por todos. E isto colocou convicções em choque. Maíra nunca aceitou que usasse “ajuda” eletrônica para entreter e eu achava uma forma de conseguir isso. Usar celular ou afim só em caso de desespero total (ou escondido dela). Ela venceu. As meninas comiam (e comem) lendo livros. Mas isso nunca foi o bastante. 



Devido a toda complexidade que envolve ter prematuras em casa, comida é um ponto vital e analisado sob o ponto de vista de uma endocrinologista é quase um desafio. Elas tinham um cardápio absolutamente formatado para elas. Sem sal ou açúcar, óleo de girassol, produtos orgânicos e cozidos para elas. Era muito engraçado levar as receitas para onde quer que fossemos (dividida em semana A e B). Em 3 anos elas só passaram a comer a “nossa comida” em 2013. Em defesa disto posso garantir que a comida era gostosa, já que as pequenas sobras quem comia era eu mesmo! Na tentativa de mudar algo levei uma amiga nutricionista para ajudar, contudo não ajudou, mas serviu para ver que o nosso cardápio era nutritivo, equilibrado, sortido, ou seja, perfeito. 

As refeições eram feitas na sala e apenas no final de 2012 é que passaram a ser feitas na cozinha. Isso era motivado pelo tamanho dos cadeirões. Depois compramos umas cadeiras que se acoplam em cadeiras normais que são extremamente uteis e quebram o maior galho. Até hoje estão em uso. 

O auge do desespero alimentar foi em junho de 2012 quanto viajamos mais uma vez a Recife. As meninas decidiram fazer uma greve de fome. Olha posso garantir que pular da janela foi um pensamento recorrente e quase executado.
Comparar crianças faz parte da rotina de qualquer casal. E para nosso assombro parece que o mundo adora comer, menos nossas filhas. Eu não consigo até hoje saber se fizemos algo de errado, se existia uma tática diferente, se nos é que erramos, se somos estressados demais ou se a comida era ruim mesmo no paladar delas, mas comer sempre foi uma luta.
O que nos deixa tranquilos é que elas cresceram (ufa!) e se desenvolveram plenamente ao ponto de alcançarem as curvas de crescimento de normalidade e até passando e muito estas (no caso da Júlia). Então no final das contas acertamos e todo o hercúleo sacrifício e as lagrimas derramadas de ambas as partes surtiram efeito desejado. Em 2013 a meta é as fazer comerem sozinhas. Bolo e brigadeiro (estritamente em festas) já o fazem, mas até hoje não sei por que (bobinho).
Quem quiser os cardápios me manda um e-mail!!!