quarta-feira, 29 de agosto de 2012

01.01.01

O réveillon de 2010 foi inesquecível. Pela primeira vez em minha vida iria estar num hospital na virada do ano, mas sem trabalhar. Era um ambiente diferente festivo, pelo menos para mim. Era o último dia de Alice e Julia lá. Só poderíamos entrar as 23:30, então ficamos do lado de fora. Me sinto como no portão de um show que esperei a minha vida inteira, só faltaram os gritos de "Abre, abre...". Entramos devidamente trajados de branco, e claro que elas também. Para mim o branco no último dia do ano é regra. A noite foi perfeita, muitas fotos com todos da UTI, já que na manha seguinte as enfermeiras seriam outras e teve até uma pequena contagem regressiva, ao som de um sussurro claro. Depois da virada voltamos para casa. O dia tinha que raiar logo.

No dia seguinte chegamos cedo e claro, mais fotos. Até uma simbolizando a entrega das pediatras para gente tiramos. Não posso esquecer quando a Maíra abraçou a Filo e agradeceu. Foi uma emoção enorme. Fomos ao carro e as meninas conosco. Não dava para acreditar.

Chegamos em casa e eu filmando tudo. Quando abri a porta de nossa casa algo aconteceu que não posso explicar. Eu nunca fui um sujeito muito emotivo. Na verdade minhas emoções sempre foram absolutamente comedidas, mas mudei. Elas me mudaram. Acho que nunca chorei de alegria em minha vida, ali foi a primeira vez. Colocamos as meninas em seus berços. Pai como eram pequenas. O berço era simplesmente um playground! Acho que assim como todos os pais do mundo, não dormimos naquela noite. Mal sabia eu que era apenas a primeira de 365 que viriam. Exagero? de forma alguma daquela noite em diante a minha primeira noite de sono completa só veio em 2012. Lá por abril....

Clara veio 2 dias depois. E esses dois dias foram muito esquisitos, mas passaram rápido. A Clara foi a mais prematura de todas, em todos os sentidos... 
Nunca imaginei que iria mudar tanto, que ser pai era o inicio de um novo Vamberto e que a vida daquele momento em diante me seria mais plena. E plena de muitos e deferentes sentimentos...

Que fique claro que o que aconteceu com as minhas filhas foi fora da curva de normalidade. As meninas passaram na UTI por momentos difíceis é certo, mas de uma forma geral sempre em uma condição mais estável possível.

A vida agora seria a 5, na verdade seriam tantas pessoas que tive a impressão que passei a morar em minha própria comunidade. Só que em 105 m2.

2011 iniciavasse  repleto de expectativas e abertos a descobertas, só não avisaram que seria tão, mas tão difícil...

domingo, 22 de julho de 2012

SHORT TALES

A convivência na UTI é o que poderia chamar de a mais plural das individualidades que tive a oportunidade de ter. As incubadoras são locais exclusivos dos pais e daqueles que trabalha na UTI, não é um local de comparações. Viva seu mundinho.  Maiores ou menores todos têm problemas a ser resolvidos. Normalmente na entrada é o único local de convivência ou nas conversas com a equipe de psicologia. Temos que lavar mãos ate a altura do cotovelo, regra básica, e nesse momento estamos todos juntos. Obviamente além dos sorrisos amarelos sempre tem alguma troca de palavras curtas. É essa força que alimenta os nossos espíritos. Afinal todos estão no mesmo barco. E aí sabemos um pouco da historia de cada bercinho.  Final feliz não é uma rotina.

Made in Santos
Maria Eduarda foi a nossa primeira vizinha de frente. Ela foi uma prematura que nasceu quase em transito. Sua mãe entrou em trabalho de parto e como era muito pequena decidiram vir às pressas para o Santa Joana pela UTI melhor. Atitude duplamente desesperada que só entende que é pai e mãe. Nascer na estrada é algo terrível para um prematuro e perder a oportunidade de ter, mesmo que limitada, em um hospital menos preparado não deve ser desprezado. Mas tudo deu certo. Duda nasceu de parto normal, com 30 semanas e o peso da Clara: 1,2Kg. Chorava até não poder mais e tinha muito refluxo. Lembro de um dia que ela teve uma apneia em nossa frente. Eu assisti a tudo sem saber se deveria me meter ou não, mas a equipe viu rapidamente e acordou a pequena para respirar. Outro detalhe é que o primeiro presente que ela ganhou foi uma Minie que era pelo menos 2x o seu tamanho. Era hilário ver aquela bonecona presa na incubadora e a bebe muito menor. Quem quiser ver a Minnie basta entrar no site do Santa Joana e ir ver fotos/filme da UTI neonatal. Ela vai aparecer. Duda deu aos seus pais um presentão de natal. Sua alta foi exatamente nesta época. Imagino que em Santos ela deve ter chorado mais alto que os fogos no réveillon!

Damn you CA
Gabriel nasceu de 26 semanas. Seu parto foi antecipado pela descoberta de um câncer de mama em sua mãe, particularmente não sei se esta conduta é a mais indicada, mas foi a tomada pelo seu médico. Interromper a gestação em uma mulher de seus 40 anos é uma decisão dificílima. Como um infertileuta acho isto uma temeridade pelos riscos e dificuldades de uma nova gestação. Mas assim foi feito. Gabriel nasceu pequeno perto de 600 gramas e sua mãe foi operada e iniciou quimioterapia. Acompanhamos as suas ausências na UTI bem como seu regresso com um lindo turbante para esconder a provável falta de cabelo. Neste momento o seu pai sempre estava lá. Pense em um paizão. Chegava ao final do dia e ficava horas ao seu lado. O problema do Gabriel foi a imaturidade do pulmão, algo compreensível, esperado e terrível. Assistimos as várias tentativas de retirar o tubo dele, sempre sem sucesso. Na última vez estávamos chegando a UTI e flagramos a pediatra conversando com os pais sobre a quase perda do Gabriel. Seu caminho foi a traqueostomia. Buraquinho no pescoço para ajudar a respirar. Gabriel evoluía muito bem com ganho de peso e um grande progresso. Quando recebemos alta, Gabriel ficou em uma ala especial. Já estava com um quilo e tantos e planos para “home care”. Algum tempo depois voltamos para uma visita e ficamos sabendo da perda dele. Ficamos muito abalados e tristes. Parecia alguém próximo, mas não era. Éramos conhecidos de UTI.

Again
Isadora foi mais uma prematura que vimos chegar. Sua mãe apresentava um distúrbio de coagulação que provocava perdas sucessivas por infarto placentar. Segundo a mãe já havia abortado outras 3 vezes. Isadora foi a gravidez mais longa. Apesar de usar anticoagulante sua placenta ficou inapta a “alimentar” a Isadora e o Doppler alterou. Consequência: parto com 27 semanas e um bebe muito pequeno. Perto de 400 gramas. Sua mãe, como é de praxe nas UTIs era uma heroína Irredutível e implacável na UTI. Se fosse bicho tenho certeza que iria lamber a cria por horas e dias a fio. Isadora surpreendeu. Teve um inicio de vida tranquila pesar de tudo  que passava e começou a ganhar peso. A cada dia a confiança no sucesso era maior. No dia 1 de janeiro nossas filhas recebiam alta e dois dias depois Isadora teria uma septicemia por ruptura de intestino. Inesperado, ela já estava com 1,7Kg. Jamais vou esquecer deste dia. Minha alegria contrastada no semblante devastado dos pais de Isadora e dos seus avós. A equipe da UTI talvez prevendo o pior deixou todo mundo ir vê-la antes da cirurgia. Acho que todos sabiam que ela não sairia bem. Isadora faleceu no dia seguinte. Seus pais foram sempre muito educados e tentei muito falar com eles. Mas não tinha como. Nem sabia seus sobrenomes. Durante muito tempo rezamos por eles.

A little hole
Rafael foi nosso vizinho de frente. Sua vinda foi anunciada aos 4 ventos e os preparativos enormes. Rafael iria nascer com uma hérnia diafragmática e estava vindo do Espírito Santo. A que ouvia sua hérnia era enorme e prognóstico péssimo. A hérnia em si já é bem complicada, imagina uma grande. Saímos um dia e no outro lá estava ele no berço cheio de tubos e cateteres. Me lembro que chegava o natal e aquela cena só me lembrava a árvore de natal que vi em NY no Trump Tower. Como tinha luz ao redor daquele menino! Rafael era enorme pesava quase 4 kg e sua mãe era bem pequena. Era ate engraçado, tentei imaginar como seria aquela mulher com ele na barriga. Médica e oftalmologista, ela só chorava ao lado do berço. Certamente ciente das chances de sucesso pequenas. Mas a cirurgia foi um sucesso. Muito melhor do que as melhores expectativas. Rafael evoluiu muito bem e de forma quase miraculosa estava respirando sem aparelhos em poucas semanas. Depois fiquei sabendo da fama da UTI em casos de hérnia. Pude até comprovar recentemente com dois casos que acompanhei de hérnia lá na UTI que se saíram muito bem. Acho que estava certo. Aquelas luzes era uma árvore de natal e o anjo do natal fez seu milagre. Rafael recebeu alta no dia 25 de dezembro.
Nossa história chega ao fim na UTI. Momentos felizes e tristes foram vividos. Minha vida mudou para minha eternidade. Agora é chegada a hora do mundo conhecer minhas trigêmeas. 

http://www.youtube.com/watch?v=lEZkFYgxp20&feature=player_embedded#t=0s

quinta-feira, 28 de junho de 2012

OS GRANDES PAPAIS DA NATUREZA

Esta é uma homenagem que na época fiz para todos os pais (homens) lutavam na UTI. Na verdade existem outros "machos" que são ótimos pais, mas este nos representam muito bem.  


Um dos animais mais devotados, o cavalo-marinho é um animal monogâmico que faz tudo para a sua companheira, até carregar os ovos em sua barriga. Após a dança do acasalamento, a fêmea transmite os ovos através de um tubo em seu corpo. A quantidade de ovos que os pais transportam pode chegar a 1 mil, que se desenvolvem por três semanas, até eclodirem de 100 a 250 cavalos-marinhos de cerca de 1 centímetro cada. 



O pinguim Imperador pode ser considerado o melhor pai do mundo. Depois que a fêmea bota o grande ovo da espécie, é o macho que faz todo o processo para a sua eclosão. O pai recolhe o ovo, o mantém aquecido durante dois meses, sem deixá-lo de lado nem para se alimentar. A missão fica ainda mais difícil pelas temperaturas que podem chegar a 70 graus abaixo de zero, mas os pais não tiram os seus ovos quentes de jeito nenhum.Depois do nascimento, ainda é o pai o responsável pela alimentação dos filhotes através de uma substância leitosa produzida a partir de seu corpo. Só então, as mães vão a caça de peixes para regurgitá-los aos filhotes. Após o dever cumprido os imperadores machos voltam ao mar em busca de comida para eles.


 Os saguis do sexo masculino são os responsáveis pelos primeiros cuidados com os filhotes após o parto. Por conta dos recém-nascidos possuírem cerca de 25% do peso da mãe, o período de recuperação da fêmea da espécie é de algumas semanas e assim cabe ao pai alimentar, proteger e fazer tudo que é necessário as bebês.
Olha o quadro na UTI 
 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

22/11/2010

Vou tomar a liberdade para dar um salto na linha do tempo desses meus relatos...

Duas coisas aconteceram em um espaço de tempo tão curto e tão sincronizado que não poderia passar por mim desapercebido...

Recentemente uma paciente e amiga veio em consulta para ver como estavam as coisas. Na nossa conversa ela me perguntou sobre o dia do nascimento do Gustavinho, seu filho: " aconteceu alguma coisa errada no dia do parto". Não entendi por ela me perguntou isso. Para mim foi tudo ótimo. Um menino de 3,6Kg sem complicações. Falei " Nada que me lembre". Ela continuou. "É que vendo o filme do nascimento do meu sobrinho (que fiz o parto meses depois) o Sr. estava muito mais descontraído, mais feliz. Eu e o Ricardo sempre achamos que algo não havia dado certo e queria saber disso" - Curiosidade justa de uma mãe que tem um filho lindo e quer sempre saber se há algo errado. Tudo veio como uma avalanche. Realmente não estava bem naquele dia por uma conjunção de eventos. Lembrei de tudo...

O parto tudo foi bem, diria perfeito, mas não consegui ficar feliz mesmo, apesar do sucesso. Já era final da tarde quando fazíamos a cesárea e algo que ouvira naquela manhã, algo rotineiro numa UTI, martelava em minha cabeça. Um novo bebe chegou. Ela havia nascido com um peso muito pequeno, algo em torno de 800g. O peso da Alice e como estava na minha frente não pude deixar de ouvir a conversa entre o pai e a médica, um rapaz jóvem e de barba fechada - "posso ter esperança?", perguntou seco e sem muita emoção. A médica - "Claro, temos muitos casos assim, é a nossa rotina (...)". Parei de escutar e comecei a pensar com uma força descomunal - "força amigo, aqui tivemos uma pequena assim e ela esta ótima". Não sabia da história obstétrica e muito menos conseguia parar de pensar nela e no que os pais dela passariam.
Acabamos o parto e fui direto para o carro. Chorei muito. Não podia deixar de pensar que havia feito um parto que se somasse todos os pesos de minha filha + o bebe novato não daria o peso dele. Era muito duro e impossível não comparar. Queria que fosse igual. Achava injusto afinal. E apaguei isso da memória como uma defesa. Esqueci ao ponto de nunca ter sequer comentado com minha esposa, que se não ler isto aqui vai continuar sem saber...

Uma semana antes de encontrar a mãe de Gustavinho, um ano e meio depois do parto, e por fim a memória disso tudo, encontrei os pais da bebe novata na festa dos prematuros da UTI do Santa Joana. Cruzamos na subida para aquele passeio habitual sobre os buffets infantis em espaço naves (não tem como não passear neles e as meninas amam). Quando olhei para ele me lembrei na hora. Parei e pela primeira vez conversamos. Na UTI é proibido olhar os bebes dos outros e conversar com os outros pais, por motivos óbvios, e como sempre estava correndo nunca troquei 2 palavras com ele. Seu nome é Flávio, já o da sua esposa e filha não falarei. Sua filha linda, linda não, lindíssima filhota, está saudável e sem sequelas, com cabelos no ombro e bem encaracoladinho. Uma princesa, quase tão linda quanto as minhas pai coruja é assim, acostumem-se). Contei para ele o que me lembrava do 1o dia dele na UTI e juntos nos emocionamos (certamente mais eu que ele - O Flávio me parece mais durão!). Ele me contou que já havia passado por muitos médicos e todos diziam que não havia muitas esperanças e por isso não queria alimentar muitas expectativas. Por isso estava mais reticente naquele dia.

Contei isto tudo a mãe do Gustavinho. Ela ficou mais tranquila por ter, novamente, a certeza que tudo estava bem com o filhote dela. Mas para mim foi ainda mais importante já que pude ver que a vida é cheia de imprevistos, mas que de alguma forma a esperança nunca pode ser perdida. Talvez esta tenha sido a tônica da festa. Esperança nunca pode ser perdida.

Em breve falarei de outras histórias, não muito felizes pois UTI é assim mesmo, dias bons e outros nem tanto...

domingo, 3 de junho de 2012

O MURO

O muro é uma dos elementos da engenharia civil mais interessantes. O muro historicamente se destaca por já ter separado cidades como Berlin e hoje separa ainda países como as coreias e esta sendo construído em Jerusalém para separar judeus e palestinos. É a única edificação humana que pode ser vista do espaço, a muralha da China. Enfim sua importância é inegável e mal sabia eu que seria importante em nossa vida. A UTI que ficamos era enorme e poderia descrever ela assim: a área retangular  tinha a sua esquerda o “’aquário” uma área reservada a crianças mais crônicas; dividindo o todo tinha um muro, do lado da entrada era destinada as crianças mais graves e do outro lado as crianças mais estáveis; e no lado direito pias. Então o nosso sonho era “pular” o muro como as enfermeiras falavam. A cada dia que as meninas melhoravam cresciam nossas expectativas para que este dia chegasse.

Olhada no muro repleto de "coisas" necessárias as encubadoras.
Ainda no lado"grave".
 Um dia como tantos chegava a UTI e lavava as minhas mãos e notei uma movimentação em cima do berço da Alice. Focos cirúrgicos, enfermeiras e médicos com aventais azuis típicos dos usados em cirurgia. “Meu Deus, o que esta acontecendo” pensei. Fiquei ali parado na entrada do hall olhando com uma angustia que dava para pegar na mão. Estava a uns 6 metros pois não queria atrapalhar, mas acho mesmo é que petrifiquei, e não via o que estava acontecendo bem. Acho que um milhão de coisas passou na minha cabeça.  Não sei quanto tempo se passou – 20 a 30 segundos talvez, quando um dos “seres de azul” notou que estava ali olhando aquilo. Provavelmente com uma cara daquelas. “Não é a sua, não a sua!”. “Hã!” naquele momento meu cérebro, e coração, voltaram a funcionar. “Suas meninas pularam o muro “. Foi quando entendi o que acontecia, Alice e Julia, pularam o muro e a Clara ainda iria ficar por ali, mais afastada do epicentro da gravidade, mas só pularia o muro alguns dias depois. Quem estava por ali era um novo prematuro com todas as intervenções sendo feitas e por isso aquele auê todo.
Quando fui do outro lado do muro e vi as meninas fiquei muito feliz, em êxtase mesmo. Me lembro que a Maíra ficava o tempo todo pedindo para que a Clara pulasse o muro logo, era quase um mantra, pois como as meninas estavam separadas isso era algo ruim. Essa passagem da UTI jamais esquecerei e acho que nunca mais verei um muro com os mesmos olhos de novo!

quarta-feira, 21 de março de 2012

AOS OLHOS DO MUNDO...

No universo das UTIs pediátricas oxigênio é algo imprescindível. A primeira coisa que o recém-nascido faz ao nascer é respirar. Ganha pontos por isso numa escala chamada de APGAR. Não respirar logo de cara é bem ruim. As meninas começaram, neste ponto, muito bem. Os pulmões, apesar da prematuridade, estavam funcionando bem. E pouco se precisou de aparelhos. É verdade que houve necessidade de intubação sim, mas transitória e a Clara é quem deu mais trabalho por esquecer de respirar, não por problemas no pulmão. Mas o oxigênio também, pode ser muito ruim aos olhos. Sim aos olhos. Se não se tomar cuidado o nosso tão querido O2 prejudica muito a retina e causa até cegueira. Meu sogro, um homem sábio, sempre nos alertou sobre isso. Até de forma chata se que saber, mas sempre com muita razão.

Pois bem, nos primeiros exames estava tudo bem. Ainda vivíamos o lado do muro dos casos preocupantes (numa próxima vez falo sobre o “muro da UTI”) e estava tudo ótimo. Um belo dia, a noite quando eu podia fazer o canguru, a minha colega Dra. Nilva passava em sua visita de rotina e escreveu assim no prontuário da Alice: Rt GII. Nos outros GI.  Para um bom entendedor isto era o suficiente Havia retinopatia. A Maíra surtou – “Ai meu Deus as meninas estão com problemas. Fala com ela amor”. Minha esposa é do tipo que não gosta de se indispor, mas a curiosidade dela é das maiores. E lá vou eu atrás daquela figura pequena, sisuda e com uma lupa na testa. Parecia a versão petit do Robocop. “Oi, boa noite, há algo errado com as meninas?”. De bate e pronto – esta tudo bem, continua fazendo o que vocês estão fazendo (canguru) que tenho muito exame para fazer”.

Pum, Soc, Plein... Só me lembrava dos desenhos de Batman quando havia uma briga e a sonoplastia era escrita. Levei...

O que poderia fazer, realmente estava atrapalhando o trabalho dela, além do mais a obrigação de vir falar conosco era das pediatras e não dela. Ela só fazia o exame. O errado era eu mesmo. Mas como ficar calado. Foi um dos cangurus mais tensos de nossa passagem pela UTI. As meninas iriam ter problemas de visão. Era só o que faltava depois de tudo.

Contudo, após os exames feitos, ponha aí uns 20, Nilva veio falar conosco e explicou que a retinopatia do pré-maturo era algo comum e geralmente havia uma progressão. O que ela tinha visto muito provavelmente iria evoluir para cura, mas ainda tínhamos 5% de chance de que algo de pior acontecesse. Com a Alice o quadro era mais severo e deveríamos esperar para ver. Com ela as chances de problemas eram maiores e cirurgia para corrigir um descolamento de retina era real. Nada a fazer. Agora era esperar...

A cada exame nosso coração pulava, mas tudo transcorria bem. Adiantando muito esta história, 58 dias se passaram e as meninas receberam alta. Visitas ao oftalmo era obrigação nos ficamos indo regularmente a Nilva, que por sinal, sem a lupa na testa é um amor. Foram mais de 6  visitas só no primeiro ano. Tudo evolui muito bem. Nem catarata, nem mesmo a miopia do recém-nascido elas tiveram. Olhos lindos e normais. Olhos de gueixa. Olhos de vida.

Hoje toda vez que olho nos olhos delas me apaixono. Me apaixono pelo leve olhar asiático que Alice e Júlia têm ou amendoados como os da Clara. Me encanto pelos enormes cílios de todas, rimel natural. Pelos penetrantes olhos castanhos. Que olha nos olhos delas se delicia com a força, alegria e vida que emanam. Que o mundo sempre as veja assim, encantadoras e que possam se deliciar com o mundo que vai se apresentar em frente deles... 

domingo, 18 de março de 2012

UTI, dias de trovão...

A noite no hospital foi tranquila. Maíra dormiu bem e sem dor.  Acordei de manhã (não dormi quase nada) e como estava tudo bem decidi ir para casa tomar banho e descansar um pouco. Cheguei e dormi uns 30’e acordei. Estava me vestindo quando Maíra me ligou avisando que a Clara teve uma complicação. Um pneumotórax. Quando ela me falou gelei. “Meu Deus, mas ela é muito pequena”.
Saí em desembalada carreira para o hospital. Queria ver as meninas. Queria ver a Clara. Cheguei lá e fomos. A incubadora parecia uma árvore de natal de tantos fios e tubos. Não registrei este momento em foto ou na memória. Lembro-me vagamente disso. Na verdade muitos desses momentos são um tanto quanto nebulosos para mim. A dor é algo incrível. Nesta altura a Júlia estava entubada, assim como a Clara. Alice que tinha passado o pão que o Diabo amassou durante a gestação estava muito tranquila. Obviamente aquilo era dolorido ela também tomava analgésicos que a deixavam mais sonolenta. As primeiras 24 hs transcorreram muito bem e Clara estava ótima. Graças ao Papai do Céu, que nunca nos faltou.
Alice no canguru. Maíra entre os berços de Alice e Júlia
A evolução das meninas foi muito boa e os parâmetros respiratórios estavam ótimos. O dreno torácico colocado na Clara para resolver o pneumotórax foi retirado antes do habitual e tudo parecia que entraria num estado de normalidade. Mas numa UTI não é bem assim. O coração da Júlia ainda não tinha respondido a medicação para fechar o canal interventricular. Para a Alice uma dose só de Indometacina foi o suficiente. As médicas discutiram conosco a possibilidade de necessitar de um procedimento cirúrgico para fechar o canal no coração caso a medicação não conseguisse fazê-lo . Olha só como é a vida.  Mas tudo acabaria bem, com o coração e o danado do canal fechando em tempo prévio a qualquer necessidade cirúrgica. 
Passado esses primeiros dias (uns 7dias) a rotina começava a modificar. Elas já se preparavam para tomar leite pela sonda e já curtíamos a possibilidade de fazer Canguru com elas. Alice foi a primeira a sair do oxigênio, a tomar leite materno e a fazer canguru, 6 dias após o nascimento. Júlia logo em seguida no 7º dia, porque teve que esperar o fechamento do canal no coração. A Clara demorou mais, 10 dias, por causa do pneumotórax e porque teve que ficar mais tempo no CPAP.
Mas como as médicas da UTI já tinham nos alertado, bebê prematuro é uma caixa de surpresa.  No 12º dia de nascida Clara começou a fazer apneia, esquecia de respirar, então voltou para o CPAP e teve que trocar a cafeína pela Aminofilina. Me lembro da conversa nesse dia, pois a apneia foi progressiva. Havia a possibilidade da causa ser uma anemia, comum em prematuros ou convulsão. Olha que escolha: sangue ou anticonvulsivante por um longo período. A decisão foi simples os dois: Hemotransfusão e exames para diagnosticar se havia foco de convulsão. Mobilizei o mundo para doar sangue para ela, e também nestas horas nos vemos quão querido somos. Muita gente doou. O exame demorou alguns dias para ser marcado, para mim uma eternidade. Ela passou a ser acompanhada pelo neurologista infantil e teve que fazer polissonografia para excluir convulsões. Tomou sangue, claro. Outra imagem que não queria ver. Teve que mudar a medicação que ajuda a não se esquecer de respirar. Esta mais complicada pelo limite toxico e de ação serem próximos. O que aconteceu:  intoxicou com a medicação para evitar as apnéias, ficou com o coração super acelerado, tremendo muito e vomitando. Resultado ficou 2 dias de jejum e perdeu 120g. Um pesadelo. Olha que prometi que muita coisa vendo ela sofrendo ali. Júlia e Alice estavam bem, só no come dorme.  A hemotransfusão não teve complicações e depois deste verdadero calvário Clara começava a melhorar. Ufa!
Ufa nada, como tudo agora estava bem, tinha que complicar um pouco. O exame do olho alterou...
Mas isso fica para a próxima vez... 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma UTI em minha vida

A UTI surgiu a partir da década de 30 transformaram o prognóstico, reduzindo os óbitos em até 70%. Hoje todas especialidades utilizam-se das unidades intensivas, principalmente para controle de pós-operatório de risco.
É muito importante tanto para o paciente como para família compreender a UTI como etapa fundamental para superação da doença, porém tão importante é aliviar e proporcionar conforto independente do prognóstico. A equipe está orientada no respeito a dignidade e autodeterminação de cada pessoa internada, estabelecendo e divulgando a humanização nos seus trabalhos, buscando amenizar os momentos vivenciados através do paciente e família. A UTI é sem dúvida muito importante para o avanço terapêutico, porém impõe nova rotina ao paciente onde há separação do convívio familiar e dos amigos, que pode ser amenizada através das visitas diárias. Outro aspecto importante é a interação família-paciente com a equipe, apoiando e participando das decisões médicas.
Detalhe das pulseiras e terço
Logo que a Maíra pode se levantar ela quis e ver as pequenas. Eu havia ido a UTI rapidamente apenas para ver a chegada delas por lá, mas não queria estar por perto quando fossem necessárias intervenções mais agudas, pior do que saber que isso vai ser feito é ver.
Eram umas 21hs do dia 06 de novembro de 2010. Decidi levar a Maira em cadeiras de rodas para assegurar que nada iria acontecer. Ao chegar na porta da UTI meu coração estava a mil. Já havia entrado ali tantas vezes, mas era diferente agora.  Fomos recebidos pela enfermeira e foi até divertido ver que ela explicava sobre como seria a condução de todo o processo, mas ficava repetindo “eu sei que vocês são médicos”. Ali não queria ser médico. Queria e fui apenas pai. Sempre me portei como igual lá dentro, por mais que tivesse plena consciência de tudo que se passava.
As meninas eram os primeiros berços da UTI. Quem entrasse dava de cara com elas. A UTI tinha um “muro”. De um lado os quadros mais sérios, do outro lado, os mais leves. Isto só fomos saber muito depois. Por isso a expressão pular o muro era a que mais queríamos para nossas pequenas (mas isso só aconteceu muito tempo depois!).
Olhar a incubadora pela primeira vez era como olhar um aquário. Havia uma umidade necessária para não agredir a pele dalas que não permitia que visse quase nada lá dentro, mas mesmo assim foi maravilhoso vê-las e com os sinais vitais ótimos. Ninguém entubado e todas super bem. Posso garantir que chorei muito.
Maíra queria pegar, claro, mas não foi possível ali. Era complicado, para falar o mínimo. Ficamos o tanto de tempo que ela agüentou ficar. Talvez meia hora. Sublime meia hora. A UTI tranquila, apenas nos de pais e um silencio maravilhoso, lógico entrecortado por mil bips das maquinarias da UTI.
Na UTI havia pelo menos umas 20 crianças, e não estava cheio. Poucos nenês críticos. Lá não é possível saber nem falar com ninguém. Uma norma importante para que ninguém fique bisbilhotando a vida e filhos alheios, com comparações infelizes e dolorosas. Cada criança tem suas “mães” lá dentro. Fomos agraciados com dois anjinhos: Filomena (simplesmente - Filó) e Claudia. Como amo estas mulheres viu...
Assim acabava o primeiro dia: todas muito bem (incluindo a mãe), mas tem uma máxima em minha vida que UTI neonatal é que nem criar passarinho: um dia ela canta maravilhosamente bem, no outro... Tudo é muito frágil e acelerado. Sabia disso, mas queria viver aquilo ali como algo que iria continuar. Pena que não foi assim, pois no outro dia muitas coisas mudaram...