quarta-feira, 21 de março de 2012

AOS OLHOS DO MUNDO...

No universo das UTIs pediátricas oxigênio é algo imprescindível. A primeira coisa que o recém-nascido faz ao nascer é respirar. Ganha pontos por isso numa escala chamada de APGAR. Não respirar logo de cara é bem ruim. As meninas começaram, neste ponto, muito bem. Os pulmões, apesar da prematuridade, estavam funcionando bem. E pouco se precisou de aparelhos. É verdade que houve necessidade de intubação sim, mas transitória e a Clara é quem deu mais trabalho por esquecer de respirar, não por problemas no pulmão. Mas o oxigênio também, pode ser muito ruim aos olhos. Sim aos olhos. Se não se tomar cuidado o nosso tão querido O2 prejudica muito a retina e causa até cegueira. Meu sogro, um homem sábio, sempre nos alertou sobre isso. Até de forma chata se que saber, mas sempre com muita razão.

Pois bem, nos primeiros exames estava tudo bem. Ainda vivíamos o lado do muro dos casos preocupantes (numa próxima vez falo sobre o “muro da UTI”) e estava tudo ótimo. Um belo dia, a noite quando eu podia fazer o canguru, a minha colega Dra. Nilva passava em sua visita de rotina e escreveu assim no prontuário da Alice: Rt GII. Nos outros GI.  Para um bom entendedor isto era o suficiente Havia retinopatia. A Maíra surtou – “Ai meu Deus as meninas estão com problemas. Fala com ela amor”. Minha esposa é do tipo que não gosta de se indispor, mas a curiosidade dela é das maiores. E lá vou eu atrás daquela figura pequena, sisuda e com uma lupa na testa. Parecia a versão petit do Robocop. “Oi, boa noite, há algo errado com as meninas?”. De bate e pronto – esta tudo bem, continua fazendo o que vocês estão fazendo (canguru) que tenho muito exame para fazer”.

Pum, Soc, Plein... Só me lembrava dos desenhos de Batman quando havia uma briga e a sonoplastia era escrita. Levei...

O que poderia fazer, realmente estava atrapalhando o trabalho dela, além do mais a obrigação de vir falar conosco era das pediatras e não dela. Ela só fazia o exame. O errado era eu mesmo. Mas como ficar calado. Foi um dos cangurus mais tensos de nossa passagem pela UTI. As meninas iriam ter problemas de visão. Era só o que faltava depois de tudo.

Contudo, após os exames feitos, ponha aí uns 20, Nilva veio falar conosco e explicou que a retinopatia do pré-maturo era algo comum e geralmente havia uma progressão. O que ela tinha visto muito provavelmente iria evoluir para cura, mas ainda tínhamos 5% de chance de que algo de pior acontecesse. Com a Alice o quadro era mais severo e deveríamos esperar para ver. Com ela as chances de problemas eram maiores e cirurgia para corrigir um descolamento de retina era real. Nada a fazer. Agora era esperar...

A cada exame nosso coração pulava, mas tudo transcorria bem. Adiantando muito esta história, 58 dias se passaram e as meninas receberam alta. Visitas ao oftalmo era obrigação nos ficamos indo regularmente a Nilva, que por sinal, sem a lupa na testa é um amor. Foram mais de 6  visitas só no primeiro ano. Tudo evolui muito bem. Nem catarata, nem mesmo a miopia do recém-nascido elas tiveram. Olhos lindos e normais. Olhos de gueixa. Olhos de vida.

Hoje toda vez que olho nos olhos delas me apaixono. Me apaixono pelo leve olhar asiático que Alice e Júlia têm ou amendoados como os da Clara. Me encanto pelos enormes cílios de todas, rimel natural. Pelos penetrantes olhos castanhos. Que olha nos olhos delas se delicia com a força, alegria e vida que emanam. Que o mundo sempre as veja assim, encantadoras e que possam se deliciar com o mundo que vai se apresentar em frente deles... 

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