domingo, 3 de junho de 2012

O MURO

O muro é uma dos elementos da engenharia civil mais interessantes. O muro historicamente se destaca por já ter separado cidades como Berlin e hoje separa ainda países como as coreias e esta sendo construído em Jerusalém para separar judeus e palestinos. É a única edificação humana que pode ser vista do espaço, a muralha da China. Enfim sua importância é inegável e mal sabia eu que seria importante em nossa vida. A UTI que ficamos era enorme e poderia descrever ela assim: a área retangular  tinha a sua esquerda o “’aquário” uma área reservada a crianças mais crônicas; dividindo o todo tinha um muro, do lado da entrada era destinada as crianças mais graves e do outro lado as crianças mais estáveis; e no lado direito pias. Então o nosso sonho era “pular” o muro como as enfermeiras falavam. A cada dia que as meninas melhoravam cresciam nossas expectativas para que este dia chegasse.

Olhada no muro repleto de "coisas" necessárias as encubadoras.
Ainda no lado"grave".
 Um dia como tantos chegava a UTI e lavava as minhas mãos e notei uma movimentação em cima do berço da Alice. Focos cirúrgicos, enfermeiras e médicos com aventais azuis típicos dos usados em cirurgia. “Meu Deus, o que esta acontecendo” pensei. Fiquei ali parado na entrada do hall olhando com uma angustia que dava para pegar na mão. Estava a uns 6 metros pois não queria atrapalhar, mas acho mesmo é que petrifiquei, e não via o que estava acontecendo bem. Acho que um milhão de coisas passou na minha cabeça.  Não sei quanto tempo se passou – 20 a 30 segundos talvez, quando um dos “seres de azul” notou que estava ali olhando aquilo. Provavelmente com uma cara daquelas. “Não é a sua, não a sua!”. “Hã!” naquele momento meu cérebro, e coração, voltaram a funcionar. “Suas meninas pularam o muro “. Foi quando entendi o que acontecia, Alice e Julia, pularam o muro e a Clara ainda iria ficar por ali, mais afastada do epicentro da gravidade, mas só pularia o muro alguns dias depois. Quem estava por ali era um novo prematuro com todas as intervenções sendo feitas e por isso aquele auê todo.
Quando fui do outro lado do muro e vi as meninas fiquei muito feliz, em êxtase mesmo. Me lembro que a Maíra ficava o tempo todo pedindo para que a Clara pulasse o muro logo, era quase um mantra, pois como as meninas estavam separadas isso era algo ruim. Essa passagem da UTI jamais esquecerei e acho que nunca mais verei um muro com os mesmos olhos de novo!

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