quinta-feira, 28 de junho de 2012

OS GRANDES PAPAIS DA NATUREZA

Esta é uma homenagem que na época fiz para todos os pais (homens) lutavam na UTI. Na verdade existem outros "machos" que são ótimos pais, mas este nos representam muito bem.  


Um dos animais mais devotados, o cavalo-marinho é um animal monogâmico que faz tudo para a sua companheira, até carregar os ovos em sua barriga. Após a dança do acasalamento, a fêmea transmite os ovos através de um tubo em seu corpo. A quantidade de ovos que os pais transportam pode chegar a 1 mil, que se desenvolvem por três semanas, até eclodirem de 100 a 250 cavalos-marinhos de cerca de 1 centímetro cada. 



O pinguim Imperador pode ser considerado o melhor pai do mundo. Depois que a fêmea bota o grande ovo da espécie, é o macho que faz todo o processo para a sua eclosão. O pai recolhe o ovo, o mantém aquecido durante dois meses, sem deixá-lo de lado nem para se alimentar. A missão fica ainda mais difícil pelas temperaturas que podem chegar a 70 graus abaixo de zero, mas os pais não tiram os seus ovos quentes de jeito nenhum.Depois do nascimento, ainda é o pai o responsável pela alimentação dos filhotes através de uma substância leitosa produzida a partir de seu corpo. Só então, as mães vão a caça de peixes para regurgitá-los aos filhotes. Após o dever cumprido os imperadores machos voltam ao mar em busca de comida para eles.


 Os saguis do sexo masculino são os responsáveis pelos primeiros cuidados com os filhotes após o parto. Por conta dos recém-nascidos possuírem cerca de 25% do peso da mãe, o período de recuperação da fêmea da espécie é de algumas semanas e assim cabe ao pai alimentar, proteger e fazer tudo que é necessário as bebês.
Olha o quadro na UTI 
 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

22/11/2010

Vou tomar a liberdade para dar um salto na linha do tempo desses meus relatos...

Duas coisas aconteceram em um espaço de tempo tão curto e tão sincronizado que não poderia passar por mim desapercebido...

Recentemente uma paciente e amiga veio em consulta para ver como estavam as coisas. Na nossa conversa ela me perguntou sobre o dia do nascimento do Gustavinho, seu filho: " aconteceu alguma coisa errada no dia do parto". Não entendi por ela me perguntou isso. Para mim foi tudo ótimo. Um menino de 3,6Kg sem complicações. Falei " Nada que me lembre". Ela continuou. "É que vendo o filme do nascimento do meu sobrinho (que fiz o parto meses depois) o Sr. estava muito mais descontraído, mais feliz. Eu e o Ricardo sempre achamos que algo não havia dado certo e queria saber disso" - Curiosidade justa de uma mãe que tem um filho lindo e quer sempre saber se há algo errado. Tudo veio como uma avalanche. Realmente não estava bem naquele dia por uma conjunção de eventos. Lembrei de tudo...

O parto tudo foi bem, diria perfeito, mas não consegui ficar feliz mesmo, apesar do sucesso. Já era final da tarde quando fazíamos a cesárea e algo que ouvira naquela manhã, algo rotineiro numa UTI, martelava em minha cabeça. Um novo bebe chegou. Ela havia nascido com um peso muito pequeno, algo em torno de 800g. O peso da Alice e como estava na minha frente não pude deixar de ouvir a conversa entre o pai e a médica, um rapaz jóvem e de barba fechada - "posso ter esperança?", perguntou seco e sem muita emoção. A médica - "Claro, temos muitos casos assim, é a nossa rotina (...)". Parei de escutar e comecei a pensar com uma força descomunal - "força amigo, aqui tivemos uma pequena assim e ela esta ótima". Não sabia da história obstétrica e muito menos conseguia parar de pensar nela e no que os pais dela passariam.
Acabamos o parto e fui direto para o carro. Chorei muito. Não podia deixar de pensar que havia feito um parto que se somasse todos os pesos de minha filha + o bebe novato não daria o peso dele. Era muito duro e impossível não comparar. Queria que fosse igual. Achava injusto afinal. E apaguei isso da memória como uma defesa. Esqueci ao ponto de nunca ter sequer comentado com minha esposa, que se não ler isto aqui vai continuar sem saber...

Uma semana antes de encontrar a mãe de Gustavinho, um ano e meio depois do parto, e por fim a memória disso tudo, encontrei os pais da bebe novata na festa dos prematuros da UTI do Santa Joana. Cruzamos na subida para aquele passeio habitual sobre os buffets infantis em espaço naves (não tem como não passear neles e as meninas amam). Quando olhei para ele me lembrei na hora. Parei e pela primeira vez conversamos. Na UTI é proibido olhar os bebes dos outros e conversar com os outros pais, por motivos óbvios, e como sempre estava correndo nunca troquei 2 palavras com ele. Seu nome é Flávio, já o da sua esposa e filha não falarei. Sua filha linda, linda não, lindíssima filhota, está saudável e sem sequelas, com cabelos no ombro e bem encaracoladinho. Uma princesa, quase tão linda quanto as minhas pai coruja é assim, acostumem-se). Contei para ele o que me lembrava do 1o dia dele na UTI e juntos nos emocionamos (certamente mais eu que ele - O Flávio me parece mais durão!). Ele me contou que já havia passado por muitos médicos e todos diziam que não havia muitas esperanças e por isso não queria alimentar muitas expectativas. Por isso estava mais reticente naquele dia.

Contei isto tudo a mãe do Gustavinho. Ela ficou mais tranquila por ter, novamente, a certeza que tudo estava bem com o filhote dela. Mas para mim foi ainda mais importante já que pude ver que a vida é cheia de imprevistos, mas que de alguma forma a esperança nunca pode ser perdida. Talvez esta tenha sido a tônica da festa. Esperança nunca pode ser perdida.

Em breve falarei de outras histórias, não muito felizes pois UTI é assim mesmo, dias bons e outros nem tanto...

domingo, 3 de junho de 2012

O MURO

O muro é uma dos elementos da engenharia civil mais interessantes. O muro historicamente se destaca por já ter separado cidades como Berlin e hoje separa ainda países como as coreias e esta sendo construído em Jerusalém para separar judeus e palestinos. É a única edificação humana que pode ser vista do espaço, a muralha da China. Enfim sua importância é inegável e mal sabia eu que seria importante em nossa vida. A UTI que ficamos era enorme e poderia descrever ela assim: a área retangular  tinha a sua esquerda o “’aquário” uma área reservada a crianças mais crônicas; dividindo o todo tinha um muro, do lado da entrada era destinada as crianças mais graves e do outro lado as crianças mais estáveis; e no lado direito pias. Então o nosso sonho era “pular” o muro como as enfermeiras falavam. A cada dia que as meninas melhoravam cresciam nossas expectativas para que este dia chegasse.

Olhada no muro repleto de "coisas" necessárias as encubadoras.
Ainda no lado"grave".
 Um dia como tantos chegava a UTI e lavava as minhas mãos e notei uma movimentação em cima do berço da Alice. Focos cirúrgicos, enfermeiras e médicos com aventais azuis típicos dos usados em cirurgia. “Meu Deus, o que esta acontecendo” pensei. Fiquei ali parado na entrada do hall olhando com uma angustia que dava para pegar na mão. Estava a uns 6 metros pois não queria atrapalhar, mas acho mesmo é que petrifiquei, e não via o que estava acontecendo bem. Acho que um milhão de coisas passou na minha cabeça.  Não sei quanto tempo se passou – 20 a 30 segundos talvez, quando um dos “seres de azul” notou que estava ali olhando aquilo. Provavelmente com uma cara daquelas. “Não é a sua, não a sua!”. “Hã!” naquele momento meu cérebro, e coração, voltaram a funcionar. “Suas meninas pularam o muro “. Foi quando entendi o que acontecia, Alice e Julia, pularam o muro e a Clara ainda iria ficar por ali, mais afastada do epicentro da gravidade, mas só pularia o muro alguns dias depois. Quem estava por ali era um novo prematuro com todas as intervenções sendo feitas e por isso aquele auê todo.
Quando fui do outro lado do muro e vi as meninas fiquei muito feliz, em êxtase mesmo. Me lembro que a Maíra ficava o tempo todo pedindo para que a Clara pulasse o muro logo, era quase um mantra, pois como as meninas estavam separadas isso era algo ruim. Essa passagem da UTI jamais esquecerei e acho que nunca mais verei um muro com os mesmos olhos de novo!