quarta-feira, 6 de junho de 2012

22/11/2010

Vou tomar a liberdade para dar um salto na linha do tempo desses meus relatos...

Duas coisas aconteceram em um espaço de tempo tão curto e tão sincronizado que não poderia passar por mim desapercebido...

Recentemente uma paciente e amiga veio em consulta para ver como estavam as coisas. Na nossa conversa ela me perguntou sobre o dia do nascimento do Gustavinho, seu filho: " aconteceu alguma coisa errada no dia do parto". Não entendi por ela me perguntou isso. Para mim foi tudo ótimo. Um menino de 3,6Kg sem complicações. Falei " Nada que me lembre". Ela continuou. "É que vendo o filme do nascimento do meu sobrinho (que fiz o parto meses depois) o Sr. estava muito mais descontraído, mais feliz. Eu e o Ricardo sempre achamos que algo não havia dado certo e queria saber disso" - Curiosidade justa de uma mãe que tem um filho lindo e quer sempre saber se há algo errado. Tudo veio como uma avalanche. Realmente não estava bem naquele dia por uma conjunção de eventos. Lembrei de tudo...

O parto tudo foi bem, diria perfeito, mas não consegui ficar feliz mesmo, apesar do sucesso. Já era final da tarde quando fazíamos a cesárea e algo que ouvira naquela manhã, algo rotineiro numa UTI, martelava em minha cabeça. Um novo bebe chegou. Ela havia nascido com um peso muito pequeno, algo em torno de 800g. O peso da Alice e como estava na minha frente não pude deixar de ouvir a conversa entre o pai e a médica, um rapaz jóvem e de barba fechada - "posso ter esperança?", perguntou seco e sem muita emoção. A médica - "Claro, temos muitos casos assim, é a nossa rotina (...)". Parei de escutar e comecei a pensar com uma força descomunal - "força amigo, aqui tivemos uma pequena assim e ela esta ótima". Não sabia da história obstétrica e muito menos conseguia parar de pensar nela e no que os pais dela passariam.
Acabamos o parto e fui direto para o carro. Chorei muito. Não podia deixar de pensar que havia feito um parto que se somasse todos os pesos de minha filha + o bebe novato não daria o peso dele. Era muito duro e impossível não comparar. Queria que fosse igual. Achava injusto afinal. E apaguei isso da memória como uma defesa. Esqueci ao ponto de nunca ter sequer comentado com minha esposa, que se não ler isto aqui vai continuar sem saber...

Uma semana antes de encontrar a mãe de Gustavinho, um ano e meio depois do parto, e por fim a memória disso tudo, encontrei os pais da bebe novata na festa dos prematuros da UTI do Santa Joana. Cruzamos na subida para aquele passeio habitual sobre os buffets infantis em espaço naves (não tem como não passear neles e as meninas amam). Quando olhei para ele me lembrei na hora. Parei e pela primeira vez conversamos. Na UTI é proibido olhar os bebes dos outros e conversar com os outros pais, por motivos óbvios, e como sempre estava correndo nunca troquei 2 palavras com ele. Seu nome é Flávio, já o da sua esposa e filha não falarei. Sua filha linda, linda não, lindíssima filhota, está saudável e sem sequelas, com cabelos no ombro e bem encaracoladinho. Uma princesa, quase tão linda quanto as minhas pai coruja é assim, acostumem-se). Contei para ele o que me lembrava do 1o dia dele na UTI e juntos nos emocionamos (certamente mais eu que ele - O Flávio me parece mais durão!). Ele me contou que já havia passado por muitos médicos e todos diziam que não havia muitas esperanças e por isso não queria alimentar muitas expectativas. Por isso estava mais reticente naquele dia.

Contei isto tudo a mãe do Gustavinho. Ela ficou mais tranquila por ter, novamente, a certeza que tudo estava bem com o filhote dela. Mas para mim foi ainda mais importante já que pude ver que a vida é cheia de imprevistos, mas que de alguma forma a esperança nunca pode ser perdida. Talvez esta tenha sido a tônica da festa. Esperança nunca pode ser perdida.

Em breve falarei de outras histórias, não muito felizes pois UTI é assim mesmo, dias bons e outros nem tanto...

2 comentários:

  1. Ola Dr. Vamberto.
    Que ótima ideia desse reencontro. Imagino que para vocês tenha sido maravilhoso.
    E parabéns pelas pequenas, estão linda!!!!

    Bjs, Regiane, Seu Paulo e Sofia

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