Made in Santos
Maria Eduarda foi a
nossa primeira vizinha de frente. Ela foi uma prematura que nasceu quase em
transito. Sua mãe entrou em trabalho de parto e como era muito pequena
decidiram vir às pressas para o Santa Joana pela UTI melhor. Atitude duplamente
desesperada que só entende que é pai e mãe. Nascer na estrada é algo terrível
para um prematuro e perder a oportunidade de ter, mesmo que limitada, em um
hospital menos preparado não deve ser desprezado. Mas tudo deu certo. Duda
nasceu de parto normal, com 30 semanas e o peso da Clara: 1,2Kg. Chorava até
não poder mais e tinha muito refluxo. Lembro de um dia que ela teve uma apneia
em nossa frente. Eu assisti a tudo sem saber se deveria me meter ou não, mas a
equipe viu rapidamente e acordou a pequena para respirar. Outro detalhe é que o
primeiro presente que ela ganhou foi uma Minie que era pelo menos 2x o seu
tamanho. Era hilário ver aquela bonecona presa na incubadora e a bebe muito
menor. Quem quiser ver a Minnie basta entrar no site do Santa Joana e ir ver
fotos/filme da UTI neonatal. Ela vai aparecer. Duda deu aos seus pais um presentão
de natal. Sua alta foi exatamente nesta época. Imagino que em Santos ela deve
ter chorado mais alto que os fogos no réveillon!
Damn you CA
Gabriel nasceu de 26
semanas. Seu parto foi antecipado pela descoberta de um câncer de mama em sua
mãe, particularmente não sei se esta conduta é a mais indicada, mas foi a
tomada pelo seu médico. Interromper a gestação em uma mulher de seus 40 anos é
uma decisão dificílima. Como um infertileuta acho isto uma temeridade pelos
riscos e dificuldades de uma nova gestação. Mas assim foi feito. Gabriel nasceu
pequeno perto de 600 gramas e sua mãe foi operada e iniciou quimioterapia.
Acompanhamos as suas ausências na UTI bem como seu regresso com um lindo
turbante para esconder a provável falta de cabelo. Neste momento o seu pai
sempre estava lá. Pense em um paizão. Chegava ao final do dia e ficava horas ao
seu lado. O problema do Gabriel foi a imaturidade do pulmão, algo
compreensível, esperado e terrível. Assistimos as várias tentativas de retirar
o tubo dele, sempre sem sucesso. Na última vez estávamos chegando a UTI e
flagramos a pediatra conversando com os pais sobre a quase perda do Gabriel.
Seu caminho foi a traqueostomia. Buraquinho no pescoço para ajudar a respirar.
Gabriel evoluía muito bem com ganho de peso e um grande progresso. Quando
recebemos alta, Gabriel ficou em uma ala especial. Já estava com um quilo e tantos
e planos para “home care”. Algum
tempo depois voltamos para uma visita e ficamos sabendo da perda dele. Ficamos
muito abalados e tristes. Parecia alguém próximo, mas não era. Éramos
conhecidos de UTI.
Again
Isadora foi mais uma
prematura que vimos chegar. Sua mãe apresentava um distúrbio de coagulação que
provocava perdas sucessivas por infarto placentar. Segundo a mãe já havia
abortado outras 3 vezes. Isadora foi a gravidez mais longa. Apesar de usar
anticoagulante sua placenta ficou inapta a “alimentar” a Isadora e o Doppler
alterou. Consequência: parto com 27 semanas e um bebe muito pequeno. Perto de
400 gramas. Sua mãe, como é de praxe nas UTIs era uma heroína Irredutível e
implacável na UTI. Se fosse bicho tenho certeza que iria lamber a cria por
horas e dias a fio. Isadora surpreendeu. Teve um inicio de vida tranquila pesar
de tudo que passava e começou a ganhar
peso. A cada dia a confiança no sucesso era maior. No dia 1 de janeiro nossas
filhas recebiam alta e dois dias depois Isadora teria uma septicemia por
ruptura de intestino. Inesperado, ela já estava com 1,7Kg. Jamais vou esquecer
deste dia. Minha alegria contrastada no semblante devastado dos pais de Isadora
e dos seus avós. A equipe da UTI talvez prevendo o pior deixou todo mundo ir
vê-la antes da cirurgia. Acho que todos sabiam que ela não sairia bem. Isadora
faleceu no dia seguinte. Seus pais foram sempre muito educados e tentei muito
falar com eles. Mas não tinha como. Nem sabia seus sobrenomes. Durante muito
tempo rezamos por eles.
A little hole
Rafael foi nosso
vizinho de frente. Sua vinda foi anunciada aos 4 ventos e os preparativos
enormes. Rafael iria nascer com uma hérnia diafragmática e estava vindo do Espírito
Santo. A que ouvia sua hérnia era enorme e prognóstico péssimo. A hérnia em si
já é bem complicada, imagina uma grande. Saímos um dia e no outro lá estava ele
no berço cheio de tubos e cateteres. Me lembro que chegava o natal e aquela
cena só me lembrava a árvore de natal que vi em NY no Trump Tower. Como tinha luz ao redor daquele menino! Rafael era
enorme pesava quase 4 kg e sua mãe era bem pequena. Era ate engraçado, tentei
imaginar como seria aquela mulher com ele na barriga. Médica e oftalmologista,
ela só chorava ao lado do berço. Certamente ciente das chances de sucesso
pequenas. Mas a cirurgia foi um sucesso. Muito melhor do que as melhores expectativas.
Rafael evoluiu muito bem e de forma quase miraculosa estava respirando sem
aparelhos em poucas semanas. Depois fiquei sabendo da fama da UTI em casos de
hérnia. Pude até comprovar recentemente com dois casos que acompanhei de hérnia
lá na UTI que se saíram muito bem. Acho que estava certo. Aquelas luzes era uma
árvore de natal e o anjo do natal fez seu milagre. Rafael recebeu alta no dia
25 de dezembro.
Nossa história chega
ao fim na UTI. Momentos felizes e tristes foram vividos. Minha vida mudou para
minha eternidade. Agora é chegada a hora do mundo conhecer minhas trigêmeas.
http://www.youtube.com/watch?v=lEZkFYgxp20&feature=player_embedded#t=0s
http://www.youtube.com/watch?v=lEZkFYgxp20&feature=player_embedded#t=0s
Ola, nossa, impossivel imaginar o que é esta convivência e esta experiência de vida.
ResponderExcluirDepois dá uma olhada no meu blog, vc conhece o Projeto Beta? http://pequenascoisasdare.blogspot.com.br/2012/08/projeto-beta.html